segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Dia de Natal 2011 - Rosam Cardoso



Dia de Natal 2011

Fazia sol naquela hora da tarde.
Havia dança nas folhas ao passar do vento.
O morro ao longe não estava nítido,
a maresia,
o escondia entre as saias.
Latidos ressoavam no ar que passava.
Um motor rugia.
Brilhos e sombras,
vozes e vultos.
Tudo ecoava elástico,
atemporal.
Na dimensão do descanso,
do repouso,
das cantorias
e gargalhadas.
Era Natal.
Tudo se fundia.
Eram preces caladas no peito,
lábios vestidos de sorrisos.
Pedidos, evocações, lembranças.
Reencontro de tudo que nos construiu,
para lembrarmos que somos juntos.
Feitos de uma magia
que emana
quando o sonho crepita.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

SAUDADE

No altar do coração
dobro-me silente
para que a saudade,
por hora quente,
não desatine meus sentidos.

Como aplacar a corredeira
que invade a lembrança
de cada instância da narina
a emitir contínua
o perfume de tua tês?

E os olhos, então?
Dois brilhantes astutos,
arrancavam-me da calçada do viver
e me jogavam na estrada da paixão
sem direção, saborosamente sem tino.
Como era bom ter os cabelos alvoroçados
pelos ventos do imprevisto
nada de medo, só risco.
Ventura.
Tudo na espessura da alegria.

Ah, como a vida ganha sentido!
É um entorpecer benigno,
tangente às raias da loucura.
Que matura,
enaltece.
Uma prece a cada adormecer.
Os braços abrigados em teu contorno
sem limites
na sensação de extensão contínua
como nuvens que se encaixam.
Leves a flutuarem no céu dos sonhos.
Risonho o corpo se aconchega
e repousa na paz da completude.

Ah, saudade!
Porque me maltratas assim?
Sei que és o cárcere da lembrança
quando o presente carece de alma.
A saudade é irmã da nostalgia,
uma algia por não sermos mais nós.
Tu, alhures; eu - em nós.
Nessa altura, a saudade é uma doença,
uma vida que não se pensa,
ancorada no que foi.


Para resgatar minha deidade
deponho a saudade,
enterro as recordações
e olho para o futuro
feito de mim.

sábado, 5 de março de 2011

ORAÇÃO AO FEMININO

Eis-me aqui, feminino!
Menino sapeca
Que salpica ao ermo
Seu falo indolente
Crente de ter o controle.
Ao ver-te, porém,
Aquieto-me.
Aquiesço à tua quinta-essência.

Embora me faça senhor,
Arrogante possuidor,
Tendo ao descalabro
Se o véu não abro
Para te permitir em mim ventania.

Tu és a musa do receptivo,
Ao acolher incondicional,
Ao enamorar o desconhecido.
Sem ti, do que vale o masculino?
De que vale o Sol a pino
Se não há natureza para recebê-lo ao passar?

Tudo que em prol cria
É feminino.
Sua dádiva é procriar.
Sei que tenho minha parte erguida.
Já desbravei,
Já conquistei,
Já inventei
A ponto de a tudo quase destruir.

Socorre-me!

Venha Amazonas,
Matreira,
Com intuição brilhante na testa,
Conduzindo-me espiritual acima
E fecundo à Terra mãe abaixo.
O que sou senão fruto do teu ventre
Que volta ao teu ventre para se propagar?


Perdoa-me a arrogância
Ao tê-la subjugado aos meus propósitos
E presumido que poderia prescindir de tua força.
Perdoa-me.
Honro-te nesta oração
Para que meu coração se apazigúe
E o teu se fortaleça.
Para que o teu com o meu se estruture
E o meu com o teu se abasteça.
E que, juntos,
Como dois inteiros,
Possamos replantar o planeta.
Criar histórias e lendas
De seres que não serão mais parte,
serão oferenda.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

TE AMO

Não preciso te conhecer pra dizer que te amo.
Seja lá quem você seja
és uma das faces do Ser no planeta.
Uma faceta que escorre pelas gretas
tentando safar-se.
Machuca.
Machuca-se.
Dá murro em ponta de faca.
Bate cabeça.
Dá as costas.
Enfrenta.
Não corre da raia.
Tropeça.
Vai aos trancos e barrancos.
Luta para estar vivo.
Aspira,
porque aspirar é da natureza de quem respira.

Te amo,
seja preto, branco, vermelho ou amarelo.
Sei que o elo vai além das considerações
e o que nos une transluz em batidas cardíacas,
em cadências e pulsares.
Pode, até, esconder-se nos confins da Terra,
mas não adianta, tua essência berra.
Não há nesga que não esteja contida,
que não seja acolhida
pelo sopro do amor.

Te amo e pronto!
Se queres o confronto,
se em alguma instância o desaponto,
põe um ponto.
Talvez reticências,
mas sempre existirá o nós.
Somos feitos de relações
e apesar de termos sentimentos que nos separam,
todos são um modo de amor que ainda não vingou.

Te amo
pela simples razão.
Por ser fato consumado.
Para além das estribeiras.
No entanto e sem intuito.
Fortuito ou arteiro.
Te amo árido,
cálido,
falido,
polido,
intransigente,
receptivo.
Não importa o adjetivo.
Te enxergo coração noviço,
em reboliço para entender o que se passa.
Para entender que aonde há fumaça
o fogo principia.
E se há fogo,
não haverá paz enquanto não se permitir incendiar-se
pela paixão do espírito.

Te amo.
E por mais que disfarces,
por mais que se distraia
com púrpuras e brilhos
te vejo como a mais rara poesia.
Um capricho do Grande Espírito
ao povoar sua casa.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

ME NINA

Mulher me nina
alegre de chorar.
Tão fundo mar
qual abismo beira
e dança.

Tristeza
é quando não me dou
fluente prisma
a decifrar tuas cores,
em batucada,
em gargalhada
no amor meu.

Sigo teu signo
de carinho em membrana.
Atabalhoada de perguntas.
Língua de palavras muitas,
irriga.
De onde vem
dorso de curvas cruas?
Quem pousará quente
na tez formosa
desabrochada de segredos?

Ah, essa sina de se dar.
Abrir-se sem esquinas.
Mantra de uivos bolina
qual sereia no ar.
Lapida o futuro.
Arrebata o homem imaturo
só pra povoar.

Diva vinda
em brilho
és gozo do céu.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

AFOGUEADO

O fogo
grita a cada reentrância
em que existo.
Torna-me clamor cintilante
por mais que eu me negue,
por mais que eu me menos.
A menos que eu me faça profusão,
eu muito
em muitos sentidos,
desvairado em várias instâncias,
o fogo vira azia,
vira inflamação,
pensamento vão,
queima sem propósito.
Contrai, contrariando contra.
Torna-se tumor
a tramar suicídio.
Não há como lutar.
Lutar é insensatez
de quem teme ser imensurável,
sem entendimento pra se prever,
sem lógica pra se prover
do previsível.
O fogo derrete ou explode.
É pra quem pode
aturar-se nudez que crepita
e aceita a impermanência que habita
os corpos
nos desvãos de nossa saga.
É pra quem singra inaudito,
porque honra-se chama
forjando o inédito.
Sermos fogo
prenuncia a possibilidade
de nos tornarmos luz
para que façamos jus
à grandeza que nos incita.